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Direito e Literarura

RICARDO III E O ESTADO DE PERIGO COMO VÍCIO DO CONSENTIMENTO
José Fernando Simão

O ano é 1485. Inglaterra, campo de batalha ao redor da cidade de Leicester (localizada na região central da ilha). Após anos de uma guerra civil sangrenta, estamos diante da batalha de Bosworth Field em que a Rosa Branca de York luta contra a Rosa Vermelha de Lancaster.

De um lado, as força legalistas apoiando o rei Ricardo III (York) e de outra seus oposicionistas, apoiando Henrique Tudor (Barão de Richmond e representante da Rosa Vermelha de Lancaster).

A guerra tem sua origem na sucessão do Rei Eduardo III (aquele que iniciou a Guerra dos Cem Anos com a França). Seu filho primogênito (Eduardo, o Príncipe Negro) falece deixando como herdeiro um menino débil – Ricardo II – que se transforma num rei trágico que com pouco tempo de reinado é assassinado.

Abre-se então a dúvida quanto à questão sucessória: sucederia ao menino a casa de Lancaster ou a casa de York, sendo que ambas as casas descendiam diretamente do Rei Eduardo III? Inicia-se a Guerra das Rosas entre primos e irmãos.

Em 1485, a casa de York (Rosa Branca) está no poder e seu rei é Ricardo III, imortalizado por Shakespeare como um rei corcunda, com um braço seco e que teria, segundo o teatrólogo, sido responsável pelo cruel assassinato de seus dois sobrinhos (Eduardo V e seu irmão Ricardo) na Torre de Londres. Ricardo, casa-se com sua sobrinha Elizabeth, e desde 1483 reina soberanamente.

Ocorre que a Casa de Lancaster (Rosa Vermelha) clama por vingança e chama Ricardo III de “Usurpador”. Monta-se o cenário belicoso e a batalha de Leicester se inicia.

As forças de Ricardo são paulatinamente dizimadas, não sem antes o Rei ter praticado inúmeros atos de bravura, que impressionaram aos presentes. Entretanto, vendo que a batalha estava irremediavelmente perdida, Ricardo, trajando sua armadura e a coroa real, decide pessoalmente avançar contra Henrique Tudor para pessoalmente matá-lo.

Assim, após inúmeros combates, Ricardo, montando seu cavalo, consegue derrubar todas as defesas inimigas, mata o porta-estandarte de Henrique e se aproxima do traidor. Neste momento, seu cavalo é atingido por uma flecha e Ricardo é lançado ao chão. A coroa real cai de sua cabeça e se prende em um arbusto.

Ricardo grita furiosamente: “Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!” Do original de Shakespeare: “A horse, a horse, my kingdom for a horse!”

Exatamente neste momento temos um clássico exemplo do vício do consentimento chamado de ESTADO DE PERIGO previsto pelo Código Civil de 2002 em seu artigo 156.

Para se salvar dos perigos evidentes da batalha, o Rei oferece todo seu reino em troca de um mísero animal. Ora, nos termos do artigo 156 Ricardo II encontrava-se premido de necessidade de se salvar e portanto assume obrigação excessivamente onerosa.

Certamente o Reino Unido vale muito mais que um cavalo!

E qual a conseqüência de o negócio ter sido celebrado em estado de perigo? O negócio jurídico compra e venda do cavalo é anulável num prazo de 4 anos, contados da data de sua celebração, nos termos do artigo 178, II, do Código Civil de 2002.

E quem ganhou a batalha de Bosworth Field?? Para os interessados sugere-se a leitura do romance histórico: O SOL EM ESPLENDOR (autora Jean Playd, Editora Record).

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