Até o ano de 1991, quando prestei vestibular, aos 17 anos, tinha certeza que seria Engenheiro Agrônomo. Somente na semana do vestibular, por insistência familiar, e talvez convencido pelo fato de que teria que ler muito (a leitura sempre foi um enorme prazer) resolvi prestar o vestibular para a Faculdade de Direito.
Passei no vestibular e lá fui eu, ao centro de São Paulo, fazer minha inscrição para iniciar o curso de direito no ano de 1992. Lembro-me, com certa vergonha, de ter descido no metrô Sé e perguntado ao guarda como chegar à Faculdade de Direito. Ele sorriu e disse que bastava seguir reto. Perguntei por qual rua e ele respondeu: qualquer uma delas! Realmente, Riachuelo, Senador Feijó e Quintino Bocaiúva levam à Faculdade.
Com 18 anos, percorria o centro com medo e admiração, e realmente, foi inesquecível meu encontro com a Faculdade de Direito. O prédio estava bastante pichado e deteriorado, mas sua visão foi suficiente para eu me apaixonar. As arcadas, os vitrais, os nomes dos antigos alunos e aquela euforia dos veteranos que não nos poupavam dos trotes (incluindo o temido banho no laguinho da Sé do qual escapei, por sorte).
A matrícula se dava no espaço entre as Salas João Mendes Junior (Turma Par) e Barão de Ramalho (Turma Ímpar). Informei meu nome e recebi um papel azul com uma etiqueta de computador colada (continha o nome do aluno, o semestre letivo e o número USP).
Já no ano de 1992, quando calouro, pude participar ativamente do movimento promovido pelo Centro Acadêmico XI de Agosto que clamava por ética na política. Era Fernando Collor o presidente e o país se inquietava com as denúncias que recaiam sobre PC Farias, tesoureiro da campanha do Presidente.
Faltei às aulas de Direito Civil do Professor De-Mattia para, de ônibus, subir a Brigadeiro Luis Antonio e me juntar à passeata dos 300 mil alunos, que depois receberiam o nome de “Caras pintadas”.
O mês de agosto era mês do “pindura” ou “pendura”. O calouro, desconhecedor das tradições, logo se acostuma. Foram várias naquele ano. Das agendadas às selvagens, em que comíamos e saímos correndo pelas ruas do centro. Inesquecível Massadoro e nossas juras sobre o Código Civil!
Os veteranos muito comentavam a respeito da Peruada. “Você não pode perder!” era a frase que mais se ouvia. Realmente, a primeira peruada a gente nunca esquece! Em fins de outubro, nossa caminha etílico-político pelas ruas do Centro. Naquele ano de 1992, fora contratado um Circo para a animação prévia. Não era exatamente um circo, pois havia apenas um sujeito cuspindo fogo (literalmente) e uma senhora, muito idosa, com trajes sumários, e três cães amestrados! Algo surreal. Sei que o carro de som (para alguns trio elétrico) contratado para o percurso não chegou e a peruada saiu sob o som da BANDA DO PERU. Sim, Aurora e USP Maravilhosa o percurso todo. Haja fôlego,mas os provectos tocadores realizaram todo o trajeto.
A política acadêmica também me chamou a atenção. Já no segundo ano (1993) fui eleito representante de classe e providenciava, com eficiência, as cópias dos materiais solicitados aos alunos. Defendi, com afincos, vários pleitos estudantis. Alguns sucessos, outros enormes fracassos.
Na seqüência, fui eleito representante discente dos alunos junto ao Departamento de Direito Civil. Por dois mandatos exerci tal função. Foi nessa época que conheci alguns dos grandes civilistas da Faculdade: Limongi França, Yussef Cahali, Alexandre Correia, Carlos Alberto Bittar, Antonio Junqueira de Azevedo, Álvaro Villaça Azevedo, Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, dentre outros.
O Direito privado despertou meu interesse logo no início do curso. As aulas de Direito Romano do Prof. Eduardo Marchi fascinavam (não me esqueço da primeira aula em que o professor contou vários casos práticos de aplicação do direito privado). O direito civil da Prof. Teresa Ancona Lopez era algo apaixonante. A professora fazia de seus exemplos práticos algo tão didático que era impossível perder uma aula de Civil.
Com a eleição de Álvaro Villaça Azevedo para Diretor fui convocado para ajudá-lo na formação das representações de classe. Cada turma elegeu um representante para reuniões mensais com o Diretor, que ouvia seus pleitos, e encaminhava a solução dos problemas.
Não foi apenas lições de Direito que recebi na Faculdade. Foram verdadeiraa lições de vida. Lá dei meus primeiros passos de uma longa e proveitosa caminhada. Devo muito à Faculdade de Direito.
Graças a Faculdade de Direito fiz grandes amigos com quem convivo até hoje (já sou padrinho de casamento, de batismo dos filhos, etc.).
Uma coisa daqueles anos idos ainda me marca, apesar de passados mais de 10 anos da formatura (graduei-me em 1996): a emoção de adentrar a Faculdade de Direito.
Ainda hoje, quando passo pelo Largo e adentro a Faculdade (apenas para passagem ou para lá ministrar aulas), sinto a mesma emoção do jovem de 18 anos que lá pisava, pela primeira vez, para fazer sua matrícula como calouro.
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